DA JANELA DO MEU QUARTO.
Da
janela do meu quarto, vejo pessoas comuns passando pela rua. Às vezes pergunto
a mim mesmo: o que será que elas pensam? O que elas gostam de comer? Quais
músicas elas gostam de ouvir? Ou quais são seus maiores sonhos? Bem, realmente
nunca terei a resposta certa para nenhuma destas perguntas, mas, uma coisa eu
posso assegurar que eu sei, estas pessoas são pessoas comuns, como você e eu.
Então, começo a procurar diferenças entre estas pessoas e eu, pois, a partir dali,
eu não mais me considerava como uma pessoa comum. Afinal de contas, eu era a
única pessoa que eu conseguia imaginar quando eu tentava pensar sobre alguém
que se depararia na janela de seu próprio quarto pensando em como é a vida das
pessoas que passam pela rua da frente. Fiquei pensando se, assim como eu, elas
já quiseram ser diferente por algum motivo – Já houve tempos em que eu quis ser
diferente pelo simples fato de eu querer ter as coisas que maioria das pessoas
tinham. Foi aí que percebi que os meus anseios não faziam o menor sentido, pois
não haveria sentido algum em me tornar diferente somente para satisfazer o
propósito único de me assimilar à maioria das pessoas.
Da
janela do meu quarto, sinto-me como um mago que vigia atônito pelo seu portal
multidimensional. Por esse portal, eu vejo pessoas que riem e que choram
pessoas que chegam e que se vão e, às vezes, não vejo ninguém. Sei que todas
estas cenas são muito normais e comuns, pois estou observando a vida de pessoas
comuns. O que eu não sei ao certo é porque continuo a chamá-las de pessoas
comuns. Acho que talvez seja só meu subconsciente tentando, de alguma forma, me
convencer de que não sou comum, de que eu tenho algo de especial. Já houve tempos em que eu pensei que eu
poderia ser um escritor, ou melhor, um poeta – não que eu duvide disso agora,
mas, no momento, isto não é relevante e nem tampouco vem ao caso. Na verdade,
eu acreditava que coisas como a amizade e o amor seriam maiores e mais
emocionantes quando passados para pedaços de papel e lançados aos quatro cantos
do mundo – também sei que isto não é de tudo, mentira – mas, mesmo assim,
percebo que eu me enganava uma vez mais. A amizade e o amor são dois
sentimentos fortíssimos e, em tal condição, vivenciá-los é a melhor maneira de
exaltá-los o mais alto possível. Vivenciar... Acho que este é o ponto onde
quero chegar.
Sei
que muitos irão pensar que sou somente um tresloucado imaginando como é a vida
das pessoas que passam em frente a minha janela, ou que outros chegarão, até,
ao atrevimento de dizer que sou um desempregado que fica observando a vida
alheia. Mas, o fato é que, foi pelas pequenas janelas dos quartos que já vivi
que eu percebi que existe vida lá fora. O mundo é tão grande que não cabe em si
e meu coração agora é nômade.
(Valdir Carvalho Ribeiro)